| Edição: 2ª |
| Publicação: 28 de setembro de 2012 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 352 |
| Peso: 0.400 kg |
| Dimensões: 20.4 x 13.4 x 1.6 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8574481939 |
| ISBN-13: 9788574481937 |
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Em “Kappa”, Ryūnosuke Akutagawa empreende uma incursão singular aos domínios do fantástico para tecer uma crítica cáustica à sociedade japonesa do início do século XX, utilizando o mito das criaturas aquáticas como um espelho deformante da condição humana. O relato, estruturado como o depoimento de um interno em um hospício, desdobra-se a partir de uma expedição a Kamikōchi, onde o protagonista é arrebatado por um Kappa para o interior de sua civilização subterrânea. Longe de ser um conto de fadas, o reino dos Kappa apresenta-se como uma distopia ironicamente organizada, onde leis, economia e costumes sociais replicam — e, frequentemente, exacerbam — a mesquinhez, a hipocrisia e as contradições do mundo exterior.
O autor utiliza a estranheza das criaturas para dissecar temas como a eugenia, a precariedade da vida laboral e a alienação intelectual. O “Levante Imaginário”, que permeia a tensão social daquela sociedade utópica às avessas, serve como alegoria para o descontentamento coletivo e a falência das ideologias de progresso. Akutagawa, com uma precisão cirúrgica e uma sensibilidade marcada por um niilismo crescente, constrói uma narrativa em que a racionalidade Kappa parece, à primeira vista, superior, apenas para revelar, sob uma análise detida, a mesma aridez moral e o mesmo vazio existencial que afligem os homens.
A prosa de Akutagawa é notável por sua concisão e pela capacidade de transitar entre o realismo descritivo e o absurdo filosófico com absoluta fluidez. Ao colocar o protagonista — e, por extensão, o leitor — em uma posição de estranhamento perpétuo, o autor questiona as convenções de normalidade que regem o contrato social. A organização social dos Kappa, com seu sistema jurídico e suas concepções de família e de arte, funciona como um mecanismo de desconstrução da própria identidade do observador. O horror, nesta obra, não reside no aspecto das criaturas, mas no reconhecimento de que, sob as escamas e a carapaça de um mito, habita o mesmo drama mesquinho de nossa civilização.
A lucidez com que o protagonista relata a sua experiência na utopia Kappa é, em última instância, o seu caminho para a exclusão e o desatino. O retorno ao mundo dos homens é um exílio interior; ao contemplar a banalidade de sua própria espécie após a imersão na sociedade subterrânea, o personagem sucumbe à desilusão. Akutagawa oferece uma reflexão contundente sobre o custo da lucidez, sugerindo que, em um mundo fundado sobre o autoengano, a percepção clara da realidade é um fardo insustentável. A obra permanece como um testemunho magistral da habilidade de converter a sátira social em um mergulho profundo nas incertezas da alma moderna.
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