| Edição: 1ª |
| Publicação: 21 de novembro de 2017 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 768 |
| Peso: 1.01 Kg |
| Dimensões: 23.2 x 14.6 x 4.4 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8556520561 |
| ISBN-13: 9788556520562 |
Quer comprar este livro?
Comprar LivroNesta obra-prima, Haruki Murakami expande as fronteiras do realismo mágico para construir um épico da passividade que se transmuta em uma busca visceral por redenção. A trama inicia-se com o desaparecimento de um gato e, subsequentemente, da esposa do protagonista, Toru Okada, um homem comum que se vê lançado em um labirinto de mistérios metafísicos. A descida literal de Toru ao fundo de um poço seco serve como a metáfora central da obra: uma incursão ao abismo do inconsciente coletivo e pessoal. Com uma linguagem onírica, o autor explora como os traumas silenciados da história japonesa — especificamente os horrores da ocupação na Manchúria — ecoam nas frestas da vida suburbana moderna, sugerindo que o presente é apenas a superfície de um oceano profundo de memórias não resolvidas.
O pássaro de corda, cujo canto Range-Engrenagem apenas Toru e alguns poucos eleitos conseguem ouvir, funciona como o motor invisível da realidade, dando corda ao mundo para que ele continue seu movimento inercial. Murakami disseca a alienação urbana através de uma galeria de personagens excêntricos — de videntes a veteranos de guerra traumatizados — que orbitam o protagonista como fragmentos de um espelho partido. A prosa percorre as sombras do desejo e da dor, oferecendo considerações detalhadas sobre a natureza do mal e a interconectividade das almas. O autor utiliza a estética do surrealismo para demonstrar que a busca por uma pessoa amada é, em última análise, a busca pela integridade do próprio ser, em um mundo onde a identidade é fluida e constantemente ameaçada por forças ocultas.
Um dos pontos mais profundos da obra reside na habilidade de Murakami em entrelaçar relatos brutais da Segunda Guerra Mundial com a banalidade do cotidiano contemporâneo. Ele demonstra que a violência histórica não desaparece; ela apenas se transmuta em fobias, desaparecimentos e na paralisia espiritual que acomete a sociedade, exigindo um ato de coragem quase mística para ser superada.
Ao encerrar esta vasta crônica, Haruki Murakami não oferece resoluções lógicas, mas uma espécie de catarse espiritual. Suas considerações finais sugerem que a vitória de Toru Okada não reside no restabelecimento do *status quo*, mas na sua transformação interna através do silêncio e da escuridão do poço. A obra subsiste como um monumento à literatura pós-moderna, desafiando o leitor a reconhecer o pássaro de corda que habita o seu próprio jardim e a enfrentar as engrenagens que movem a sua existência. É uma leitura que exige entrega absoluta, pois, ao emergir de suas páginas, o leitor percebe que o mundo real nunca mais terá a mesma nitidez de outrora.