| Edição: 1ª |
| Publicação: 14 de outubro de 2021 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 144 |
| Peso: 0.209 kg |
| Dimensões: 15.49 x 0.79 x 22.99 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6587817319 |
| ISBN-13: 9786587817316 |
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Comprar LivroA obra de Claudio Blanc se projeta como um pórtico monumental para o pensamento metafísico do Antigo Egito, estruturando uma narrativa que transcende a mera catalogação de deidades. O autor empreende uma arqueologia do imaginário, onde os mitos não são tratados como fábulas pueris, mas como sistemas lógicos de organização do cosmos e da psique humana. Através de uma prosa elegante e tecnicamente refinada, Blanc percorre as dinastias e os centros teológicos — de Heliópolis a Hermópolis —, demonstrando como a figura de Rá, o demiurgo solar, e a tríade de Osíris, Ísis e Hórus, formavam o sustentáculo moral e político de uma civilização que via na manutenção da Maat, a ordem universal, sua razão de existir.
O texto destaca-se pela capacidade de sintetizar a complexidade do Duat, o submundo egípcio, sem sacrificar a profundidade filosófica. O autor detalha o Tribunal de Osíris e a psicostasia com uma vivacidade que permite ao leitor compreender a angústia e a esperança que permeavam a transição para a eternidade. A escrita de Blanc é investigativa, explorando como a geografia do Nilo moldou a percepção cíclica do tempo e da vida, transformando a inundação anual em uma metáfora perpétua de ressurreição e abundância que se refletia em cada hieróglifo esculpido nos templos de Luxor e Karnak.
No âmago da obra, reside uma análise arguta sobre a natureza do Heka, a magia egípcia, entendida como a força primordial que permitiu a criação através da palavra. Blanc discorre sobre como os deuses eram, em última análise, manifestações de forças naturais e conceitos abstratos, cujas representações zoomórficas e antropomórficas serviam como uma linguagem visual acessível para a compreensão do absoluto. Sua abordagem evita as simplificações do esoterismo moderno, preferindo fundamentar-se em fontes primárias e em uma interpretação histórica que respeita a alteridade daquele pensamento arcaico e, ao mesmo tempo, universal.
Um dos subitens mais fascinantes da análise de Blanc refere-se à tensão constante entre a ordem e o caos, personificada no eterno conflito entre Hórus e Set. O autor argumenta que, para o egípcio antigo, o mal não era uma força a ser erradicada, mas um elemento necessário do equilíbrio cósmico que deveria ser contido e integrado. Esta visão dialética é explorada com maestria, revelando um sistema ético onde a responsabilidade individual diante da balança de Anúbis era o que definia o destino da alma, conferindo ao livro uma dimensão que ultrapassa o registro histórico para tocar em questões fundamentais da condição humana.