| Edição: 1ª |
| Publicação: 15 de dezembro de 2020 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 138 |
| Peso: 0.160 kg |
| Dimensões: 14 x 0.3 x 19 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6586862027 |
| ISBN-13: 9786586862027 |
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Em “O diabo”, Marina Tsvetáieva ergue um monumento à angústia metafísica e à visceralidade da existência. A obra é menos uma narrativa linear e mais um mergulho abissal na psique de uma mulher que se vê confrontada com as sombras que habitam o coração humano — o “diabo”, aqui, não se reveste da figura teológica convencional, mas manifesta-se como o desejo indomável, a paixão que consome e o isolamento absoluto da alma criadora. A prosa de Tsvetáieva é marcada por uma musicalidade tensa, quase fragmentada, que reflete o estado de transe de quem escreve não para relatar, mas para exorcizar os demônios que a própria lucidez insiste em evocar.
O texto é uma tapeçaria de imagens sensoriais onde o sagrado e o profano se misturam em um delírio controlado. A autora, com sua característica audácia, explora a dualidade entre a vida cotidiana — imposta pelo peso das convenções e pela escassez da realidade material — e a vida intensa, vivida no campo da imaginação e do espírito. O “diabo” é o convite à transgressão, o sussurro que empurra o sujeito para fora da margem da normalidade, onde o risco de dissolução é real, mas onde a arte, em sua forma mais pura e dolorosa, consegue enfim respirar.
Tsvetáieva imprime ao seu estilo uma densidade cortante. As frases são curtas, afiadas, carregadas de uma subjetividade que recusa a neutralidade. Cada capítulo atua como uma estrofe de um poema épico e trágico, onde o vocabulário é selecionado por sua carga emocional e não apenas por sua função informativa. Ela não descreve o sofrimento; ela o encarna na sintaxe, criando uma atmosfera de urgência que mantém o leitor em um estado de vigilância constante, como se a página pudesse incendiar-se a qualquer instante sob o olhar.
A obra propõe uma meditação sobre a solidão e o custo da integridade pessoal em tempos de desumanização. Ao enfrentar o seu próprio “diabo”, a protagonista (que carrega as marcas indeléveis da própria autora) revela que o conflito central não é contra um inimigo externo, mas contra a necessidade de manter a lealdade a si mesma num mundo que exige constante capitulação. A escrita transforma a dor em estética, demonstrando que a única forma de sobrevivência para o espírito inquieto é a transmutação do trauma em uma linguagem que transcenda as limitações da fala cotidiana.