Sobre os ossos dos mortos - Tokarczuk, Olga

Edição:
Publicação: 12 de novembro de 2019
Idioma: Português
Páginas: 256
Peso: 0.800 kg
Dimensões: 20.4 x 13.6 x 1.4 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 6580309695
ISBN-13: 9786580309696

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Sobre os ossos dos mortos - Olga Tokarczuk

A cosmologia da vingança e a insurgência do marginal

Olga Tokarczuk, laureada com o Prêmio Nobel, constrói nesta obra uma narrativa que desafia as fronteiras entre o thriller metafísico e o manifesto ecofeminista. A trama é conduzida por Janina Duszejko, uma engenheira civil aposentada, entusiasta da astrologia e protetora fervorosa dos animais, que vive em um vilarejo remoto na fronteira entre a Polônia e a República Tcheca. Mediante uma linguagem permeada por uma ironia mordaz e uma sensibilidade quase mística, a autora utiliza a voz idiossincrática de Janina para questionar a hierarquia das espécies e a arrogância humana. O que surge como uma série de mortes misteriosas de caçadores locais transmuta-se em uma reflexão profunda sobre quem detém o direito à vida e quais vozes são silenciadas pela estrutura de poder patriarcal e especista.

A astrologia como ordem e a natureza como carrasco

Um dos pilares da obra reside na cosmovisão de Janina, que interpreta a realidade por meio das efemérides astronômicas e das cartas natais. Para a protagonista, as mortes não são meros acasos, mas uma retribuição do mundo natural — uma vingança dos animais contra seus algozes. Tokarczuk explora com minúcia a psicologia da marginalização; Janina é a "velha louca" cujas teorias são desprezadas pelas autoridades, representando todos aqueles que enxergam as rachaduras em um sistema que normaliza a crueldade. A prosa é densa e atmosférica, evocando o frio cortante das montanhas polonesas e a melancolia de uma existência que encontra mais dignidade nos ossos dos mortos e nos rastros dos veados do que nas convenções sociais hipócritas.

O diálogo com William Blake e a mística da indignação

O título e as epígrafes da obra remetem diretamente à poesia visionária de William Blake. A autora estabelece um paralelo entre a indignação de Blake contra as "fábricas satânicas" da Revolução Industrial e a revolta de Janina contra a exploração predatória da natureza, sugerindo que a imaginação e a empatia são as únicas ferramentas capazes de enfrentar a cegueira moral da modernidade.

O crepúsculo da antropocentralidade

Ao concluir esta jornada singular, Olga Tokarczuk não entrega apenas uma resolução policial, mas um convite à desconstrução do ego humano. Suas considerações finais, imbricadas na resolução do mistério, deixam um rastro de desconforto ético: até que ponto a justiça pode ser exercida fora das leis dos homens quando estas leis ignoram o sofrimento do mundo sensível? A obra subsiste como um monumento à literatura contemporânea, unindo o rigor intelectual à paixão visceral pela vida em todas as suas formas. É um livro que exige coragem, pois força o leitor a olhar para os ossos que sustentam a sua própria civilização e a reconhecer o sangue que, inevitavelmente, os mancha.

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