| Edição: 1ª |
| Publicação: 14 de outubro de 2021 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 184 |
| Peso: 0.240 kg |
| Dimensões: 14 x 1.2 x 21 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 655525081X |
| ISBN-13: 9786555250817 |
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Encenada pela primeira vez em 415 a.C., em meio às tensões da Guerra do Peloponeso, As Troianas representa o ápice da tragédia como exercício de alteridade e denúncia da barbárie militar. Eurípides afasta-se da exaltação heroica para focar no “dia seguinte” à queda de Troia, transformando o palco em um átrio de espera, onde as mulheres sobreviventes aguardam a partilha como despojos de guerra. A peça não possui uma estrutura de trama convencional baseada na ascensão e queda de um herói; ela organiza-se como uma sucessão de lamentos e confrontos dialéticos que expõem a vacuidade da vitória grega. A linguagem é perpassada por uma crueza lírica que despe os generais de sua aura de glória, revelando-os como carrascos de um povo já devastado pelo luto e pelo fogo.
O centro gravitacional da tragédia reside na figura de Hécuba, a rainha despojada que testemunha a aniquilação sistemática de sua linhagem. O estilo de Eurípides caracteriza-se por conferir às vozes femininas — Cassandra, Andrômaca e Helena — uma densidade intelectual e emocional que desafia a ordem patriarcal e divina. Enquanto Cassandra profetiza a ruína dos vencedores com uma lucidez delirante, Andrômaca encarna a dor muda da perda do filho, Astíanax, cujo sacrifício representa o ponto de inflexão da crueldade humana. A tradução de Trajano Vieira preserva o rigor do pensamento grego, mantendo a tensão entre a métrica dos coros e a agudeza dos diálogos, permitindo que a obra ressoe não apenas como um registro do passado, mas como uma meditação atemporal sobre o sofrimento dos não combatentes.
O embate entre Hécuba e Helena, diante de Menelau, constitui um dos momentos mais sofisticados da dramaturgia clássica. Por meio de um agon (disputa verbal) de contornos jurídicos, Eurípides discute a responsabilidade individual versus o determinismo divino, utilizando a figura de Helena para questionar se a beleza é uma dádiva ou uma maldição que desencadeia a destruição de civilizações inteiras.
O prólogo, que apresenta o diálogo entre Posêidon e Atena, estabelece a tese da peça: os deuses são volúveis e suas alianças, efêmeras. A destruição de Troia, embora permitida pelas divindades, trará consequências funestas aos gregos no mar, sugerindo que, na visão euripidiana, a guerra é um ciclo de desgraças em que o sagrado se retira, deixando o homem a sós com sua própria finitude.
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